Em novembro de 2023, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) reavaliou os riscos de duas das substâncias mais comuns do grupo dos PFAS ("químicos eternos"): o PFOA e o PFOS.
O resumo do Volume 135 das Monografias da IARC, publicado na The Lancet Oncology, trouxe mudanças significativas devido a fortes evidências biológicas.
1. PFOA (Ácido Perfluorooctanóico)
O PFOA foi elevado para a categoria de maior risco.
-
Nova Classificação: Grupo 1 – Carcinogênico para humanos.
-
Evidência em Humanos: Limitada. Estudos epidemiológicos associaram a substância ao aumento do risco de câncer de rim (carcinoma de células renais) e câncer de testículo.
-
Evidência em Animais: Suficiente. Testes laboratoriais demonstraram o surgimento de tumores benignos e malignos.
-
Evidência Mecanística: Forte (fator decisivo para o Grupo 1). Foi comprovado que o PFOA altera o sistema imunológico (causa imunossupressão), provoca alterações epigenéticas e gera estresse oxidativo nas células humanas.
2. PFOS (Sulfonato de Perfluorooctano)
Avaliado pela primeira vez pelo programa da IARC.
-
Nova Classificação: Grupo 2B – Possivelmente carcinogênico para humanos.
-
Evidência em Humanos: Inadequada. Os dados atuais em humanos ainda não são conclusivos.
-
Evidência em Animais: Limitada. Os tumores observados em bioensaios animais foram restritos.
-
Evidência Mecanística: Forte (fator que garantiu a classificação 2B). Mesmo sem dados humanos esmagadores, o PFOS foi classificado como 2B porque age diretamente nas células humanas provocando estresse oxidativo, supressão da resposta imune e ativação de receptores celulares nocivos.
Persistência e Exposição
A publicação destaca que, embora a produção direta dessas substâncias venha sendo banida ou restrita globalmente, a exposição humana continua alta por dois motivos principais:
-
Degradação de Precursores: Outros compostos químicos ainda usados na indústria se transformam em PFOA e PFOS no meio ambiente ou no organismo.
-
Acúmulo Biológico: Uma vez ingeridos (via água ou alimentos contaminados), eles não se quebram e não são metabolizados. O corpo humano os reabsorve continuamente pelos rins, resultando em uma meia-vida de vários anos de permanência no sangue, fígado e tecidos, além de cruzarem facilmente a barreira placentária.
Fonte: Carcinogenicity of Perfluorooctanoic Acid (PFOA) and Perfluorooctanesulfonic Acid (PFOS).
The Lancet Oncology. 2023.
IARC Monographs - Volume 135.
